Jordana (Duda)

Por Fábio Pegrucci
para Os Cães do Parque


Dia 24 de Março de 2013; um domingo.

Uma época bem marcante, de muito trabalho e emoções pesadas para a ação voluntária Os Cães do Parque; há menos de duas semanas havíamos perdido a Loirinha (LINK), um dos cães mais queridos de toda essa nossa história, após quase um ano de tratamento de uma doença que, por fim, lhe foi fatal; e estávamos, há cerca de um mês, abrigando a Manuela e suas infernais filhotes (LINK), que ainda estavam sendo preparadas para adoção.

Ao entrar no parque naquela tarde, um porteiro me avisou:

- Tem uma cachorra solta no parque com um filhote. Parece que é pit bull.

A gente torce pra essas coisas não acontecerem. A gente faz de tudo para que não aconteçam. Mas, se aquilo realmente fosse verdade, era o tipo de situação urgente e perigosa na qual teríamos que intervir rápido.

Fui procurar a dita-cuja. No caminho encontrei um segurança chamado Itamar, um sujeito forte e grandão que tinha jeito com cães e não tinha medo. Ele me confirmou a história e foi intimado a ir me ajudar.

Chegando na área de visitação do parque, cheio de gente, idosos, famílias com crianças, de longe já avistei a cadela de pelagem escura, perdidona, zanzando entre as pessoas, acompanhada de uma filhote: aquilo era abandono deliberado, coisa canalha e criminosa que aprendemos a identificar nos anos de atuação naquela área; uma cadela não sai andando por aí acompanhada de seu filhote, haviam sido largadas ali, provavelmente no estacionamento do parque, certamente despejadas de algum carro, por alguém que entrou e saiu sem ser incomodado.

Caminhei na direção delas sem saber direito o que ia fazer; vi duas moças se engraçando com a filhotinha, já fazendo menção de pegá-la no colo, diante do olhar da mãe, que não parecia exatamente amistoso. Entrei no meio da história e dei uma de louco: peguei eu a filhote no colo e chamei a mãe, certo de que ela me seguiria. O Itamar foi ajudando a cercá-la e a conduzi-la até onde estava o carro, a uns quinhentos metros dali.

Tinha no carro um pouco de carne moída crua, que serviu para que ela ganhasse um pouco de confiança em nós. Parecia mais faminta e cansada do que agressiva: mas era uma mãe pit bull, perdida, estressada, certamente pronta para defender sua cria. Com jeito, conseguimos colocar uma guia em seu pescoço e puxá-la para dentro do carro. Assim, na base do "seja o que Deus quiser", levamos as duas até nosso ponto de apoio, em outra parte do parque, onde as alojamos, a princípio precariamente.

Foi assim que começou uma longa história.  



Era uma cadela mestiça de pit bull, magra, suja e de aparência extremamente sofrida; calos em todas as articulações, verrugas, as mamas muito caídas, a aparência cansada, o olhar turvo e triste. Não é nem necessário entender muito sobre cães para concluir que, até aquele dia, ela não vivera exatamente no melhor dos mundos. Certamente era mantida em condições insalubres, estava subnutrida e judiada. A filhote, aparentando entre três e quatro meses, apesar de magrinha, parecia saudável, era alegre e brincalhona; e, curiosamente, não tinha nenhum traço de pit bull, era uma viralatinha comum, de pelagem cor de caramelo e focinho escuro.

Durante as semanas seguintes, fomos aprendendo como lidar com aquela criatura de aparência pouco amistosa. Confesso que demorei muito tempo até confiar nela. 

Ela tinha muito ciúme da filhote e as duas eram muito unidas. Em Maio de 2013, apareceram muito no vídeo clipe feito para o Dia das Mães:



Nós já sabíamos que aquela separação ia doer no coração, mas por uma óbvia questão de bom senso, precisávamos antes de mais nada, rapidamente preparar e encaminhar a filhote para adoção. Laura, como foi batizada a filhotinha, foi castrada poucos dias após ter sido encontrada. Semanas depois, bonita e gordinha, ganhou um vídeo clipe, veiculado em Abril de 2013.



Muita gente se interessou por ela que, rapidamente, foi adotada. No dia 28 de Abril de 2014, pouco mais de um mês após ter sido abandonada, a Laura chegou à casa da Sendy, em Diadema (SP).

Adoção da Laura, em 28 de Abril de 2013.

Laura, já adulta, cerca de um ano após ser adotada.

Então passamos a preparar aquela mãe tão maltratada para tentar para ela um bom destino. Jordana, como só então ela foi batizada, era um dos muitos nomes que eu já tinha reservado, a espera de uma cadela que "combinasse" com ele: uma que fosse forte e imponente, como eu tinha certeza, ela ficaria.

Passada a tristeza dos primeiros dias sem sua amada filhote, ela se tornou mais afável e doce. Os exames veterinários apontaram que ela tinha uma pequena anemia, o que retardou sua castração, que só pode ser feita após um tratamento. Finalmente castrada, ela ganhou alguns dias de lar temporário na casa da Soraia até que se recuperasse.

De volta ao parque, Jordana, já gordinha e com a pelagem bonita, foi fotografa e filmada. Começou a ser anunciada para adoção em Julho de 2013. A canção "Give me Love", de George Harrison (mas em uma voz feminina, a de Marisa Monte), foi tema de seu vídeo clipe por ser autoexplicativa: aquela criatura tão sofrida só precisava de amor, carinho e compreensão para ser feliz.




Sabíamos que aquela poderia não ser uma adoção rápida; e certamente não seria uma adoção qualquer. Convivendo com a Jordana pelas semanas e meses seguintes, aprendemos que ela era amistosa com qualquer pessoa, até mesmo com as que não conhecia; também uma grande companheira de caminhadas, amável, divertida e palhaçona conosco, que cuidávamos dela todos os dias. Porém, tinha um problema bem sério: era totalmente intolerante com outros cães. Isso trouxe um grande complicador para nossa rotina no trato dos abrigados pelo longo período em que ela esteve conosco: ela simplesmente não podia se encontrar com outro cão; diante da menor provocação, sabíamos, ela não levaria o "desaforo" para casa (das duas oportunidades em que, por descuidos, isso aconteceu, os "oponentes" não guardam boas recordações).

Durante o segundo semestre de 2013, Jordana teve vários interessados em sua adoção; mas, por uma razão ou outra, ela não se concretizava (candidatos que já tivessem um cão em casa, por exemplo, eram descartados).

Demorou muito; mas quando, em Fevereiro de 2014, trocamos os primeiros emails com a Cristina, nosso feeling, apurado pelos anos promovendo adoções, já detectava: a adoção da Jordana finalmente havia chegado.

Cristina foi, num sábado de sol, com seu marido Marcelo, conhecer a Jordana; e quando ela se atirou de barriga para cima assim que os viu, o que era um palpite, tornou-se uma certeza: nascia ali um grande amor à primeira vista.

No dia seguinte ela já estava na casa deles. Certamente os primeiros dias devem ter sido estranhos para ela, se sentindo - como muitos cães se sentem - abandonados em um lugar e com pessoas que ainda não conhecem direito. 
 
Adoção da Jordana - agora Duda - em 02 de Março de 2014.


Mas, recebendo atenção e carinho de sobra, rapidamente ela se sentiu em casa e inaugurou aquela que é, com toda certeza, a melhor fase de sua vida; e não falo apenas de "um lar digno": a agora rebatizada Maria Eduarda - Duda, para os íntimos - é certamente um dos cães mais paparicados da cidade; e também um dos mais fotografados.


Linda, gorducha e sempre muito chique, Duda não lembra em praticamente nada a cadela magra e triste, abandonada em um parque público, no distante Março de 2013.

Festa de aniversário: há um ano ela encontrava sua família.

A Cristina sempre menciona o quanto a adoção mudou para melhor a sua vida e de sua família; nós acreditamos. Acreditamos porque deve haver algo de não tangível e não visível nessa maluquice penosa, trabalhosa e cara - comumente chamada de "proteção animal" - que nós praticamos; acreditamos que, muitas vezes, nós somos apenas os instrumentos que levam um ser até um lar que já era dele: nós apenas fazemos o papel de "ponte".



Não sabemos de onde a Jordana/Duda veio, nem que idade tem, nem o que nos contaria sobre seu passado se pudesse falar. Cuidamos dela durante um ano, até que a Cristina e o Marcelo aparecessem. Porque demoraram tanto, não sabemos. Mas, nesse caso, esperar valeu a pena. 

Valeu a pena para todos.



Um comentário:

  1. História emocionante. Obrigada por compartilhá-la. Vida longa e muitas alegrias para Duda e seus humaninhos de estimação :-)

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